Revista Olorun - São Paulo - Edição 15 de 20/09/2013

Ifá e o seu destino no Brasil, entrevista com Awo Ifádámiláre Agbole Obemo.

 

Por Erick Wolff8

20/09/2013


Erick Wolff - Explique em poucas palavras o que é Ifá?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - O significado da palavra Ifá está relacionado com sabedoria ou conhecimento, em um contexto religioso Ifá é o nome dado a uma disciplina espiritual que contempla um sistema religioso completo, em outras palavras, podemos dizer que Ifá é uma filosofia de vida centrada na observação da atividade das forças espirituais que sustentam o universo. Este sistema religioso é de origem Yorùbá e se organizou a partir de eventos históricos ocorridos na Nigéria, mais especificamente na cidade de Ilè Ifé, onde acredita-se ser o berço de Ifá. Segundo William Bascom em seu livro Ifá Divination: “Ifá é praticado pelos Yorùbá e Benin Edu, da Nigéria (Dennett, 1910: 148; Melzian, 1937: 159; Bradbury, 1957: 54-60; Parrinder, 1961: 148); pelos Fọn, do Daomé (hoje Rep. do Benim), que a denominam Fa (Herskovits, 1938: 201-230; Maupoil, 1943); e pelos Ewe, do Togo, que a conhecem por Afa (Spieth, 1911: 189—225). Os Fon e os Ewe reconhecem como local de sua origem a cidade Yorùbá de Ifé”.

Ifá também é o nome do sistema oracular baseado na interpretação de histórias sagradas organizadas em 256 capítulos. É costumeiro na Diáspora chamar qualquer tipo de oráculo divinatório de Ifá. Eu entendo que o tradicional jogo de búzios utilizado pelo culto de Òrìsà no Brasil pode ser ou não amparado pelo sistema Ifá. Isso não quer dizer que um ou outro sistema seja melhor ou pior, tudo depende da relação que o sacerdote tem com o plano espiritual.

Erick Wolff – De um pequeno esclarecimento sobre os Odù?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - A palavra Odù pode ser traduzida simbolicamente como útero em alusão ao aspecto gerador neles contidos. Os Odù são padrões de energia que se consolidaram durante a criação do universo espiritual e físico. Contudo, esses padrões de energia continuaram a evoluir e eles são responsáveis por garantirem a existência e evolução do Universo. Segundo Ifá, os Odù são a matéria-prima original utilizada pela Divindade (entenda-se aqui todas as entidades que foram responsáveis pela Criação) para executar a Criação de tudo o que existe, ou seja, tudo que temos no plano espiritual/físico, se originou dos Odù.

É importante entender que apesar disto, eles não estão conscientes da forma que as Divindades os são, ou ainda, se eles possuem algum tipo de consciência ela não está acessível à Humanidade. Consideramos que os Odù são essencialmente energia e que podem ser invocadas mediante a habilidade de sacerdotes específicos. A invocação de Odù tem por objetivo conectar-se a essa energia original e com isso propiciar algum objetivo especifico. Existem 16 Odù principais conhecidos como Odù Meji (são os 16 Odù primários) e 240 Odù derivados ou filhos, conhecidos como Omo Odù; cada um deles possui características específicas descritas através de histórias sagradas a eles associados. E é baseado neste modelo que está amparado o sistema oracular.

Erick Wolff – Quanto ao Odù do nascimento, é possível obter o Odù do nascimento para um adulto?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Sim, uma consulta a Ifá direcionada a este fim irá revelar o Odù de nascimento, porém é importante esclarecer que esta informação é importante apenas para um recém-nascido. O Odù de nascimento traz orientações para apoiar o início da nossa vida, ou seja, ele vai apontar necessidades imediatas e irá trazer a grosso modo o caminho que os pais devem conduzir o seu filho.

Erick Wolff – É possível usar cálculos para chegar ao Odù do nascimento?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Não, segundo Ifá isso não faz sentido. O Odù de nascimento está registrado no Ori e somente através de uma consulta oracular é possível obter essa informação. Se fosse possível sacar o Odù pela data de nascimento teríamos uma legião de pessoas nascidas no mesmo dia e regidas pelo mesmo Odù, o que não é amparado pelo ensinamento de Ifá, onde cada indivíduo tem o seu próprio Odù. Essa forma, utilizada por muitos, não tem fundamento em Ifá e está no meu modo ver relacionado com numerologia.

Erick Wolff – Quais as formas de chegar ao Odù e como e para que deve-se saber o Odù?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - No culto de Ifá, sempre que algum evento importante ocorre, por exemplo, uma iniciação, um assentamento de Òrìsà, ou uma cerimônia mais profunda, é importante solicitar um Odù através da consulta ao Oráculo com objetivo que receber orientações a respeito deste procedimento específico. Estes Odù são considerados transitórios ou temporários, ou seja, eles trazem uma influência temporária àquele evento. Um exemplo é quando o indivíduo recebe um assentamento de um Òrìsà. Será obtido um Odù que irá trazer esclarecimentos sobre como tirar um proveito positivo desse evento. Normalmente, quando o assentamento fizer “aniversário”, ele deverá ser alimentado novamente e um novo Odù será sacado para trazer novas orientações. Isso é chamado de Odù transitório.

Já em um contexto pessoal, existem dois atos importantes na vida do individuo, um deles é a obtenção do Odù de nascimento, que ocorre nos primeiros dias de vida, com uma cerimônia de nomeação chamada Esèntáiyé(durante essa cerimônia diversos atos são realizados para o recém-nascido, em uma comparação simplista é um ritual de batismo). Como já foi explicado o Odù de nascimento tem a função de orientar o início da jornada. Outro Odù muito importante é conhecido como Odù pessoal, ele tem a função de trazer à tona informações e orientações a respeito do destino pessoal. Segundo Ifá, ele é revelado durante a cerimônia de iniciação em Ifá. Essa iniciação tem como objetivo principal alinhar o Homem com seu destino pessoal e revelar ou esclarecer o acordo feito na presença de Òrúnmìlà (divindade responsável por registrar a Criação, conhecida como testemunha do destino) durante a escolha do Ìpòrí-Odù (é o destino abstrato balizador da próxima reencarnação) na casa de Àjàlá-mòpín (Divindade responsável por construir os destinos abstratos).

Erick Wolff – Qual a realidade do culto de Ifá no Brasil?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Durante o processo de assimilação da cultura da Yorùbá no Brasil, que ocorreu principalmente no período da escravidão, muitos aspectos originais foram perdidos; a adaptação do culto no Brasil gerou novos modelos religiosos que hoje são muito conhecidos e praticados. Se por um lado essa adaptação foi muito importante e positiva, por outro acabou apagando certos procedimentos que são importantes. Dentro desse contexto o Sistema Ifá acabou não ganhando força e caiu no esquecimento. Nas últimas décadas tem ocorrido novamente o intercâmbio de religiosos entre o Brasil e a África com objetivo de resgatar tais aspectos que foram perdidos ou modificados e com isso tivemos novamente o contato com Ifá. Além disso, a presença de sacerdotes de origem Cubana, praticantes de uma variação ou adaptação do Ifá Nigeriano tem chamado a atenção dos Brasileiros e atraindo adeptos ao culto. Existe, como em tudo que é relacionado ao culto de origem Afro, muita polêmica em torno do Ifá, principalmente, entre os adeptos de origem afro-cubana e de origem Tradicional (Ifá praticado pelos Yorùbá). No meu entender, essa divergência de conceitos ou práticas é muito positiva, pois incentiva o estudo e a pesquisa, mas também pode trazer muito atraso se for concentrada em invalidar o que cada origem pratica. Ifá é um sistema amplo e não limitante. Não existe uma forma correta ou única de culto; respeitar as diferenças é uma prática de Ifá. Temos que entender que os valores culturais e sociais da Nigéria são muito diferentes daqueles encontrados no Brasil, sendo assim, é fato que a liturgia e filosofia do Ifá tradicional precisarão ser adaptadas à nossa realidade. O Ifá praticado em Cuba foi adaptado durante todos esses anos, dessa forma o Ifá que está se fixando no Brasil também está se adaptando. Tomar para si a posse do verdadeiro Ifá é no mínimo um ato de soberba e é contrária a todo o ensinamento de Ifá.

Erick Wolff – Ifá e as religiões de matriz africana podem conviver pacificamente?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Esse é sonho de todo sacerdote sério que pratica Ifá. É perfeitamente possível que ambos os sistemas convivam pacificamente e principalmente compartilhem atividades que cada sistema possui em especial. Por exemplo, o culto de Ifá é especializado na divinação voltada para a orientação do destino pessoal, neste quesito eu o considero muito eficiente, por outro lado, o culto de matriz africana desenvolvido no Brasil tem potencial habilidade para o trato com os Òrìsà em especial com a questão do Olorí (Divindade responsável por proteger o indivíduo). Se ambas as práticas fossem tratadas dentro de cada culto em uma união entre casas de Ifá e Òrìsà creio que todos teriam muito a ganhar.

Erick Wolff – Como faria esta interação entre as religiões, sem sufocar ou castrar a sua cultura e os seus costumes?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Para criar essa interação basta organizar cada “coisa em seu lugar”, ou seja, as casas de Ifá receberiam a função de apoiar as casas de Òrìsà a fim de cuidar do aspecto do destino pessoal. E as casas de Òsà seriam responsáveis em cuidar do caminho Òrìsà de cada pessoa, eu creio que essa união seria o ideal para a realidade Brasileira.

Erick Wolff – Esclareça melhor sobre o destino pessoal, no culto Òrìsà, não há capacidade para trabalhar o destino pessoal?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - O destino pessoal segundo Ifá, é escolhido pelo individuo antes do inicio de uma nova reencarnação. Esse destino é balizador e não é determinante, ou seja, ele pode ser melhorado ou piorado de acordo com as ações tomadas pelo individuo. Durante o processo de gestação e nascimento de uma pessoa, o conteúdo desse destino é esquecido, neste aspecto é que a divinação é importante, pois orienta o caminho a fim de se manter fiel a este acordo feito antes do reencarne. Aqui o Ifá é muito eficiente. Eu acredito que seja totalmente possível trabalhar o destino pessoal dentro do culto de Òrìsà, pois outros métodos de divinação podem amparar isso. Contudo, o conhecimento de qual destino foi escolhido pelo individuo só é conhecido por Òrúnmìlà (testemunha do Destino) e por Àjàlá-Mòpín, sendo assim, eu diria que seria mais seguro que essa orientação viesse através de uma iniciação em Ifá.

Erick Wolff – Mas neste caso, o Bo faria este papel no culto a òrìsà, porém sem a ciência de Ifá. Correto?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Eu entendo que o Bo seja um procedimento que potencializa a essência pessoal e promova o equilíbrio. Mas daí a se saber qual foi o destino escolhido, creio que precisaria de fato da orientação oracular. Se essa orientação é obtida por Ifá ou outro sistema é uma questão da disponibilidade. Em outras palavras, até poucos anos ninguém tinha acesso ao Odù pessoal, pois o culto de Ifá não estava presente no Brasil e isso não impediu que o culto de Òrìsà florescesse. Em contrapartida, como hoje existe essa possibilidade, eu entendo que o ideal seria unir esses recursos.

Erick Wolff – O que é Orí, qual o conceito de Orí entre os Yorùbá e qual o conceito dele dentro do culto Afro-brasileiro, e fale sobre o Bo?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo – Orí é tudo que representa o individuo, incluindo o destino pessoal. No culto Afro-Brasileiro ele, às vezes, é confundido como o Òrìsà pessoal, conceito que precisa ser revisto. O ritual do Bo visa potencializar as características pessoais.

Erick Wolff – Há necessidade de um sacerdote de Òrìsà se iniciar em Ifá?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Eu diria que seria muito bom para qualquer individuo passar pela primeira iniciação em Ifá. Essa iniciação revela o Odù pessoal e com essa informação é possível obter uma orientação mais precisa acerca da vida pessoal e espiritual. E isso em nada prejudica ou invalida qualquer outra iniciação que a pessoa tenha passado.

Erick Wolff – Esta iniciação é independente do individuo ser rodante ou não? E há necessidade de manutenção ou vinculo com o iniciador?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - A iniciação em Ifá é indicada para todos, independentemente do tipo de mediunidade. Sim; é importante que se dê continuidade e que o Iniciado tenha acesso à filosofia de Ifá.

Erick Wolff – Então uma vez iniciado em Ifá, o individuo terá compromisso, o que envolve aprendizado e dedicação tal qual Òrìsà?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Com certeza, o ponto fundamental da iniciação em Ifá é aprender e se desenvolver.

Erick Wolff – A partir desta iniciação e do Odù pessoal, o indivíduo tem acesso a que? Qual diferença faz para ele saber ou não?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Eu sempre digo que a iniciação é um processo que começa com os rituais e que não termina nunca. Nós temos que nos iniciar todos os dias, ou seja, é um processo mais interno do que externo. Conhecer o Odù pessoal permite à pessoa entender melhor o seu interior, é com este objetivo que é exposto o Odù. Ele vai trazer orientações importantes para que o indivíduo oriente melhor suas atitudes. Essa é a diferença. Segundo Ifá manter o alinhamento com o destino pessoal garante o aumento do potencial humano, então conhecê-lo ajuda neste desenvolvimento.

Erick Wolff – Mas então para que iniciar em Òrìsà, não seria lógico Ifá dar este controle e si completar?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Porque precisamos de ambos os recursos para conseguir o alinhamento, segundo Ifá, manter-se em equilíbrio com as forças da natureza provoca o alinhamento da consciência interior com a consciência exterior, ou seja, faz com que o homem faça a ligação com a essência original, e os Òrìsà são os mecanismos para este processo. Iniciar-se no culto de Òrìsà recria a ligação com nossa essência ancestral. Ou seja, tanto o culto de Ifá precisa dos Òrìsà para impulsionar a evolução humana, quanto o culto de Òrìsà precisa de Ifá para alinhar o destino. Eles são complementares, um não é melhor que o outro.

Erick Wolff – Há necessidade de um sacerdote de Ifá se iniciar em Òrìsà?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Se o sacerdote deseja seguir um culto de Òrìsà Afro-brasileiro, eu diria que sim. Na minha visão, os cultos afro-brasileiros estão melhores adaptados a cuidar de Òrìsà do que o que está vindo da África no momento. Ele já passou por todo o processo de aculturação que o Ifá está passando agora.

Erick Wolff – Qual diferença entre a iniciação no culto Òrìsà tradicional africano e o tradicional Afro-brasileiro, para quem quer seguir Ifá?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Como dissemos, Ifá é um ponto-de-vista, é um caminho filosófico. Nada impede de você seguir essa orientação e cultuar a Divindade através de outro modelo. Em outras palavras, você pode ser Umbandista e se iniciar em Ifá; um caminho não vai atrapalhar o outro, vai somar. Assim sendo, se um adepto deseja ter acesso ao Ifá e cultuar o Òrìsà no formato Afro-brasileiro não há problema algum. Essa é uma questão de predisposição pessoal. Ambos os cultos de Òrìsà, seja o tradicional ou o Afro-brasileiro são válidos.

Erick Wolff – Ok, mas qual a diferença entre um e outro, sendo que vemos muitos adeptos de Ifá, que dizem que jamais se iniciaram no culto Afro-brasileiro, depois de ser iniciar em Ifá, e que consideram o culto Afro-brasileiro incompleto e inferior?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Ifá ensina que não existe um modo correto de cultuar, que não existe o modo certo, existem formas e os modelos são diferentes justamente para conseguir atender ás expectativas de cada individuo. Portanto, a forma de culto Africana, Brasileira, Cubana, ou seja ela qual for, não é melhor, nem pior, são apenas diferentes. Essa afirmação que o culto brasileiro é inferior por parte de algum praticante de Ifá demonstra total falta de conhecimento da filosofia Ifá, já que respeitar as formas de expressão religiosas é parte de seus ensinamentos.

Erick Wolff – Ouvimos sempre dizer que não há Òrìsà sem Ifá ou Odù, esta afirmação procede?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - No meu entender, não. Os Òrìsà, enquanto forças da natureza, estão presentes no mundo físico/espiritual e podem ser acessados através de invocações específicas a eles, que nada tem a ver com Odù. Os Odù enquanto portadores da matéria original podem ser usados para invocar os Òrìsà também, por exemplo, o Odù Ogunda Meji, é reconhecido como o Odù que dá vida a Ògún e podemos utilizá-lo para invocar a divindade. Mas, isso também é possível mediante outras práticas que não envolvem a utilização do Odù em si. Ou seja, da mesma forma que o acesso aos Òrìsà está presente no culto de Ifá, acesso semelhante está presente no culto dos Òrìsà. Importante esclarecer que seja qual for o culto, é necessária alguma forma de oráculo a fim de obter orientação da Divindade acerca dos processos rituais e pessoais que ocorrem no sistema religioso. Sem isso, não é possível, no meu entender, acessar os Òrìsà de forma segura e eficiente.

Erick Wolff – Sabemos que existem religiões de matriz africana que não dependem de Ifá para sobreviver, então o que nos leva a pensar que não existiria Órìsà sem Ifá?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - O fato de uma religião não estar amparada no sistema Ifá não invalida a sua forma particular de culto, contudo, sem mecanismos de comunicação com a Divindade inviabilizariam o culto. Neste sentido se faz necessário um oráculo para a Divinação, se este é Ifá ou outro, não importa. Ifá nos ensina que a Divindade irá conversar com o homem com qualquer tipo de mecanismo, desde que este seja coerente na sua prática.

Erick Wolff – Uma vez que o indivíduo seja um sacerdote de Ifá, ele possui capacidade e autonomia para praticar o culto e iniciar pessoas em Òrìsà?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Se ele passou por todos os procedimentos iniciáticos necessários, sim. Dentro do Sistema Ifá há toda liturgia necessária para tanto.

Erick Wolff – Por que as cores marrom e verde representam Ifá?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Na realidade, isso não é um padrão. Existe uma grande gama de combinações possíveis dependendo da origem do sacerdote. Na minha Família, o verde está relacionado com o Òrun (plano espiritual) e o marrom com o Ayé (plano físico), em alusão à lenda da criação onde Obàtálá plantou a palmeira, que simbolicamente, liga o Òrun ao Ayé. Função esta desempenhada pelo Sacerdote de Ifá, ao executar sua função de adivinho.

Erick Wolff – No Òrìsàísmo afro-sul, Òrúnmìlà é representado pela cor preto e branco, o que me diz?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Acredito que o simbolismo seja o mesmo. A idéia básica é a ligação entre os planos de existência.

Erick Wolff – Òrúnmìlà pode ser cultuado na cabeça dos seres humanos como divindade?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo – Òrúnmìlà, enquanto força espiritual, não é considerado um Òrìsà Olorí (Divindade responsável por proteger o individuo). Ele é o profeta mítico responsável pela disseminação do culto de Ifá no plano físico. Segundo o Babalawo Fa´Lokun Fatunmbi em seu livro “Ìbà´se Òrìsà – Ifá Proverbs, Folktales, Sacred History and Prayer”: Òrúnmìlà esteve encarnado por 7 vezes, duas delas pelo menos como Yorùbá e assim ele transferiu o conhecimento para dois sacerdotes míticos conhecidos como Akó e A. Poderíamos dizer que Òrúnmìlà é um ancestral divinizado, mas ele não é feito em ninguém.

Erick Wolff – Ifá pode manifestar na cabeça de algum individuo?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - É importante esclarecer que Ifá não é uma divindade, é sim o nome do sistema religioso. A divindade responsável pelo culto é chamada de EElà, através de estados alterados de consciência orienta os sacerdotes de Ifá. Mas isso não chega a ser uma posse como ocorre com um Òrìsà Olorí. Esta afirmação vale para Òrúnmìlà também, não há posse dele no culto de Ifá.

Erick Wolff – O desperdício, o que Ifá diz quando em determinado ritual há uma quantidade abusiva de animais para o sacrifício, é possível estipular um mínimo e um máximo de animais para o ritual?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo – Segundo Ifá, não é a quantidade de sangue que tem poder, mas a forma como você desperta o àsé nele contido. Originalmente, nós devemos condicionar a quantidade de animais utilizados com a quantidade de pessoas que vão consumi-los. Ifá e Òrìsà abominam desperdícios, mesmo porque, vidas serão ceifadas, temos que lembrar que tudo que é vivo possui consciência.

Erick Wolff – O Igba-Òrìsà vemos que há muita divergência entre o material usado, a forma que é montado e até mesmo o conceito do Igba-Òrìsà, existe algo ou alguma fórmula para que o Igba-Òrìsà seja considerado verdadeiro?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo – Existe um ditado simplista que diz o seguinte: “se você começar a rezar para uma Divindade dentro de um copo cheio de água, logo você obterá resposta”. Claro que não devemos seguir isso ao pé da letra, mas a forma como se assenta uma Divindade deve seguir a tradição ao qual ela está enraizada. Podemos realizar tal ritual de várias maneiras, mas o básico para que o Igba seja válido é conter elementos que tenham ligação com a Divindade em questão, um exemplo bem simples: basta um pedaço de ferro para invocar Ògún.

Erick Wolff – Èsù pode ficar ao lado do Igba-òrìsà dentro do Yara-òrìsà?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo – No meu ver, depende, entre suas múltiplas funções a mais importante é de guardião, por isso, em Ifá, é costume colocar seu Igba do lado de fora, contudo dependendo do caminho que ele foi assentamento (função especifica invocada durante o assentamento) pode-se sim deixá-lo dentro ou mesmo ao lado do Igba de Òrisà.

Erick Wolff – No Brasil há muitos mitos e conceitos sobre feituras de Olorí, no caso de Obá, Otim, Nanã e Òsùn, são divindades que jamais pegariam cabeça de homens?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo – Tudo depende da maneira que você interpreta a natureza dos Òrisà, eu não os entendo como tendo sexualidade e sim polaridade, apesar de respeitar os mitos e entender que seus ensinamentos sejam válidos, não compartilho dessa idéia.

Erick Wolff – Há casos em que um determinado Òrìsà exige feitura porem por qualquer outro motivo não seja possível a feitura daquela divindade naquele indivíduo, quais seriam os casos e qual seria o caminho?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo – Ifá ensina que “se você não puder dar um cabrito para a Divindade dê apenas alguns pêlos”, isso significa que se uma pessoa não tem condições de realizar a feitura ela pode ser contornada com outros rituais mais simples. Contudo, se essa necessidade visa resolver algum problema sério é indicado que seja feito o possível para realizar tal cerimônia.

Erick Wolff – A iniciação do Òrìsà feminino no Orí de homem pode mudar a sua orientação sexual?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo – De maneira alguma. A sexualidade é um aspecto definido por outros fatores, como polaridade da energia, a Divindade jamais iria alterar essa energia, mesmo porque, isso está em realidade com a individualidade do homem.

Erick Wolff – O tabu da homossexualidade, qual o motivo desta interdição?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - O assunto da homossexualidade em si mesmo já é bastante polêmico; e diversas religiões possuem algum nível de impedimento para os adeptos que mantenham tal orientação. Atualmente, observamos verdadeiras guerras filosóficas em torno disso, tentando invalidar ou validar tal comportamento, isso tem sido observado também dentro do culto de Ifá. Realmente o tabú existe, mas ele não é uniforme, algumas famílias aceitam a iniciações de homossexuais e outras não. O objetivo principal do culto de Ifá é orientar o homem no caminho da construção do “bom caráter”, ou seja, melhorar e aperfeiçoar os sentimentos e atitudes. Mas classificar o que são atitudes certas ou erradas aos olhos de Ifá é uma tarefa difícil. Por exemplo, na África é comum que um homem possa ter mais de uma esposa, já aqui no Brasil isso é visto como uma conduta imprópria. Ou seja, as ações erradas ou certas dependem de um ponto-de-vista. Ifá ensina que tudo aquilo que o homem faça e não lhe prejudique pessoalmente, nem ao meio ambiente e nem aos seus semelhantes é considerado uma prática de bom caráter. Sendo assim, se um indivíduo tem orientação homossexual e essa prática não lhe causa nenhum dano emocional ou físico e nem prejudica seus semelhantes, ele está dentro da orientação de boa conduta. Assim, porque Ifá iria exclui-lo do sistema religioso? Não faz sentido.

A questão de uma pessoa poder ou não ascender ao cargo de sacerdote de Ifá, está relacionado com o seu destino pessoal e com sua conduta ética e não com a sua orientação sexual. De nada adianta ser heterossexual e ter um comportamento promiscuo.

Em resumo, não há impedimento algum, quem decide se a pessoa tem necessidade ou não de iniciação é a Divindade e não o sacerdote, na minha Casa eu recebo bem qualquer pessoa que esteja disposta a melhorar e evoluir.

Erick Wolff – Òrìsà pode discriminar e abandonar o individuo por ser um homossexual?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Òrìsà não tem esse tipo de sentimento ou atitude e Ele não abandona ninguém, independente de qualquer situação. Muitas pessoas querem interpretar ou entender os Òrìsà como se Eles fossem humanos, precisamos lembrar que Eles são forças espirituais e não compartilham das nossas imperfeições.

Erick Wolff – Mas podem julgar e possuem personalidade, ou não?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Os Òrìsà possuem personalidade, mas não cabe a eles julgarem ninguém, essa é uma função do próprio OríIfá ensina que o julgamento é realizado por nós mesmos.

Erick Wolff – Então quer dizer que o Òrìsà serve Orí e não o contrário como dizem?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - A função dos Òrìsà é apoiar ao Homem e não o contrário.

Erick Wolff – Atualmente temos ouvido muitos debates sobre a adequação de gênero, o que Ifá diz sobre isso, é possível neste caso o Òrìsà não identificar mais o individuo ao qual foi iniciado, após a adequação de gênero?
Awo Ifádámiláre Agbole
 Obemo - É um absurdo pensar ou dizer isso. Se for assim então caso a pessoa sofra um acidente e tenha algum membro amputado o Òrìsà também deveria se afastar ou ainda se uma pessoa faz uma cirurgia estética para melhorar ou corrigir algum fator físico criaria problemas com os Òrìsà. Nada disso tem base dentro da visão Ifá sobre a essência dos Òrìsà.

Erick Wolff – Quais as motivações e mudanças que os adeptos de Ifá precisam para que Ifá possa prosperar?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Todo o Sistema Ifá é voltado para o desenvolvimento humano. Seu objetivo principal é dar ao homem condições de evoluir, a fim de manter o seu alinhamento com o destino pessoal e com isso proporcionar a construção de pessoas melhores em todos os sentidos. Essa não é uma tarefa fácil, já que vivemos em constante conflito com o meio que nos cerca, e a chave para conseguir essa conexão é manter-se em harmonia com as forças da natureza, em outras palavras, com os Òrìsà. A resposta do universo para aqueles que conseguem o alinhamento com o destino são as bênçãos de vida longa, saúde, paz, descendência e prosperidade, os pilares que dão ao homem suporte para a vida terrena.

Erick Wolff – Ifá pode mudar tudo?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - Não diria que Ifá pode mudar tudo, eu diria que Ifá mostra o caminho para a que o Indivíduo mude tudo. O ensinamento de Ifá está baseado na mudança interior, das emoções e no equilíbrio entre razão e emoção. Os rituais de passagem (iniciações), ebo (rituais de propiciação), bo (rituais de equilíbrio) e outros, são ferramentas que auxiliam na busca deste equilíbrio. Ifá ensina que é possível mudar a realidade física se você mudar a realidade interior, ou seja, construa o bom caráter, mantenha o alinhamento com o seu Destino, fique em harmonia com seu Òrìsà e obterá tudo que está acessível aos limites do seu Orí.

Erick Wolff – Qual momento que você pode narrar que traduz a beleza de Ifá?

Awo Ifádámiláre Agbole Obemo - A cada passo que eu dou em direção à compreensão dos ensinamentos de Ifá mais eu me apaixono por sua filosofia. O impulso que essa percepção nos dá para o autoconhecimento é muito empolgante. Esse ponto principal do culto de Ifá nos dá a condição de perceber dentro das nossas limitações o quanto a Divindade é incrível e isso enche o nosso espírito de esperança, pois apóia a nossa fé em um futuro melhor, tanto para a questão individual quanto para a questão global, eu creio que esta seja a beleza do Ifá.