Ògún e a Serpente Mitológica

RESUMO: Dentro do contexto mitológico cultural Yorùbá existem diversos símbolos que estão presentes em rituais e amparam conceitos filosóficos, dentre eles encontramos a Serpente. Ela esta presente em diversas culturas e seu significado esta em muitas delas relacionado com a Divindade. Neste artigo vamos explicar a relação mítica entre Ògún e o símbolo da Serpente. 

 

Trabalho publicado na Revista Ọlọ́run em Dezembro/2013

 

INTRODUÇÃO

Ògún é uma das Divindades mais cultuadas pelos seguidores das tradições Yorùbá, bem como pelo culto Afro-Brasileiro. Sua relevância é tamanha, visto que ele participa de diversos atos importantes, tanto no que diz respeito a questões ritualísticas, como na sua atividade auxiliando os processos que sustentam a vida na Terra.

 

RESUMO DO MITO

Enquanto Divindade primordial[1]Ògún participou dos eventos que foram responsáveis pela Criação. Segundo a lenda da Criação, ficou a cargo de Ògún produzir uma corrente que teria a função de permitir a Obàtálá[2]descer do Òrun[3]até o Ayé[4]. Contudo essa corrente não foi feita no formato tradicional, como conhecemos, com elos. Invés disso, Ògún forjou partes encaixadas que lembrava escamas de Serpente. A intenção de Ògún foi dar a essa corrente mobilidade e ao mesmo tempo firmeza, imagine alguém subindo e descendo por uma corrente feita com elos tradicionais, carregando objetos, por diversas vezes, isso não seria muito prático, lembrando que tal corrente não teria nenhum tipo de apoio.

Contudo Ògún, mestre na engenharia e usando sua criatividade natural desenvolveu um objeto que daria mais apoio a Obàtálá, facilitando assim o seu trabalho.

 

INTERPRETAÇÃO

O texto acima explica a importância do trabalho de Ògún no evento da Criação, contudo precisamos entender que a corrente é uma simbologia. De fato, não foi assim que aconteceu, ela retrata um portal ou ainda um caminho criado por Ògún que permitiu o transito entre os planos de existência.

Simbolicamente a Criação é representada por uma cabaça (uma esfera) dividida em duas partes iguais, a parte superior é branca e representa o Òrun, já a parte inferior é preta e representa o Ayé. Esse símbolo é muito importante para nós, além de representar os planos de existência, as partes da cabaça também simbolizam os elementos fundamentais da vida: A parte branca representa a sabedoria, a força masculina geradora, também chamada de energia positiva; A parte preta representa o que é oculto, misterioso, a força feminina gestante, também chamada de energia negativa (no sentido de polaridade). Ambas as partes da Cabaça estão separadas por uma fronteira, que mantem essas energias desconectadas. A corrente então forjada por Ògún foi utilizada também para envolver a cabaça de tal forma que suas metades se mantenham unidas, separadas unicamente pela fronteira (a divisão entre elas), garantido assim sua interação, que mantem a continuidade da vida em ambos os planos.

 

CONCLUSÃO

A ciência moderna acredita que a vida na Terra pode ter sua origem da ação da ferrugem em minérios depositados no fundo do oceano. Esse material surgiu da atividade vulcânica ou ainda por objetos vindos do espaço, isso faz um paralelo com a importância da ação de Ògún no processo da Criação.

É importante ressaltar que o símbolo da Serpente também é associado ao Òrìsà Òsùmàre[5], Divindade extremamente importante no culto, contudo a simbologia da corrente com escamas não tira de Òsùmàre o símbolo da Serpente em si, pois a ação de Ògún foi na realidade criar uma corrente mais funcional.

Essa explicação vai de encontro com o culto de Òrìsà Brasileiro onde é possível encontrar em assentamentos de Ògún uma serpente de ferro, muito provavelmente os antigos sacerdotes tiveram a intenção de demonstrar essa relação importante de Ògún com a Criação.

Por Bàbáláwo Ifádámiláre Agbole Obemo.

 


[1] Termo utilizado para classificar Divindades que já existiam no Òrun antes da Criação.

[2] Obàtálá é uma das mais importantes Divindades na cultura Yorùbá, Ele foi responsável por dar forma ao plano físico, tornando o mundo habitável e também ele construiu o corpo humano.

[3] Òrun nome da dimensão onde vivem as Divindades, também chamado de Plano espiritual.

[4] Ayé dimensão física, o universo como conhecemos.

[5] Òsùmàre é responsável pela evaporação da água, participando assim dos ciclos que produzem a chuva, por isso ele é relacionado com o arco-íris, no contexto religioso de Ifá, Òsùmàre é responsável por movimentar o Àṣẹ (energia que provê a realização, movimento, poder) entre o Òrun e o Ayé.