Orí – O Conceito Yorùbá de Pessoa

O objetivo deste artigo é consolidar e esclarecer o leitor a respeito da concepção Yorùbá de pessoa, detalhando cada componente a fim desfazer conceitos mal interpretados que povoam a tradição de Ifá e Òrisà.

Trabalho publicado na Revista Olorun, n. 15, Setembro 2013. 

INTRODUÇÃO

Existem muitos textos e artigos sobre o conceito de Orí disponíveis para leitura e, infelizmente, este assunto ainda gera muitas dúvidas entre os praticantes do culto a Ifá / Òrìsà. Por isso resolvi reunir neste artigo informações importantes que vão ajudar o leitor a entender o Conceito Yorùbá de Pessoa. Tais informações estão amparadas pelos ensinamentos de Ifá e, principalmente, em dados obtidos através do escritor e pesquisador Luiz L. Marins [1].

 

O QUE É ORÍ

Segundo a visão de Ifá, o universo é dividido em dois planos de existência: o visível conhecido por Ayé e o invisível conhecido por Òrun. Tudo o que existe no Ayé foi primeiramente planejado no Òrun. Este conceito é aplicável para toda a Criação. Contudo, sabemos que o funcionamento do Ayé também influencia o que ocorre no Òrun, ou seja, as ações tomadas pelos seres vivos e pelas forças da natureza podem causar alterações nos “planos” que estão em execução no Òrun. Este é o conceito de Unidade, que em Ifá, explica que tudo está inter-relacionado, ou seja, tudo e todos estão em constante mudança e essa constante mudança influencia o movimento do Universo como um todo.

Analisando esse conceito é possível entender que mesmo existindo a separação dos planos de existência, eles sempre interagem entre si. Dessa forma a separação é muito sutil e temos na realidade uma coexistência. No corpo literário de Ifá encontramos diversos relatos onde os Imortais viajam do Ayé para o Òrun a fim de buscar a solução para algum problema ou dificuldade, isso demonstra claramente que a realidade física está sendo moldada pela sua existência no Òrun. Portanto, a existência de tudo o que é vivo ocorre com a influência da dinâmica entre Òrun e Ayé.

A existência humana por sua vez não poderia fugir a este conceito. Vamos explorar os elementos que formam a unidade da Pessoa, ou ainda, do “Ori”.

Segundo IfáOlódùmarè delegou para Obàtálá a função de projetar e construir o corpo humano, sendo assim, ele dispôs todas as funções vitais, estruturas espirituais e físicas que sustentam a vida humana. Nesta importante função Obàtálá constrói o corpo no Òrun e este ainda sem a vida. É importante frisar aqui que o corpo feito por Obàtálá é completo, incluindo nele a cabeça; na diáspora afro-brasileira em determinado momento, criou-se um falso conceito de que Obàtálá criaria os corpos sem cabeça.

A palavra para corpo em Yorùbá é Ara. Eu entendo que o Ara inclua todos os órgãos, membros, cabeça, enfim, todos os elementos existentes no corpo. Obàtálá molda constantemente novos corpos espirituais, que são conhecidos como Ara-Òrun (em uma tradução bem literal corpos do além).

A função de criar a vida eterna é uma atribuição exclusiva de Olódùmarè. Ele recebe os Ara-Òrun ainda sem a vida e “insufla” neles a centelha Divina ou èmí (espírito eterno). O è garante-nos a imortalidade e mantém conexão com a Essência da Divindade. É o è que suporta nossa vida espiritual/física. Nele ficam armazenadas todas as lembranças e experiências, este registro é conhecido como memória eterna ou iyè-èmí.

Tão logo Olódùmarè crie o èmí e ele já tenha o Ara-Òrun, chegou à hora do indivíduo ir para o ayé pela primeira vez ou (se for o caso) cumprir o ciclo de àtúnwá (reencarnar-se). Seja qual for o caso, ele precisa escolher um Destino (Orí-Odù ou Ìpòrí-Odù)[2] na casa de Àjàlá-Mòpí. Após essa escolha, o indivíduo se dirige à fronteira entre o Òrun e o Ayé para iniciar o novo ciclo; neste processo o Ara-Òrun modifica sua forma anterior e volta ao estágio fetal, impulsionando a formação de um novo Ara-Ayé (corpo físico). A criação do corpo físico no Ayé também está a cargo de Obàtálá porque seu trabalho da criação ocorre nos dois níveis de existência: Òrun/Ayé. Conforme o mito da criação foi Ele quem criou os primeiros seres humanos no Ayé.

Durante esse processo o Indivíduo ganha uma nova memória existencial, a iyè-àpò[3], esquecendo assim todas as suas experiências anteriores e desenvolvendo uma nova personalidade e consciência, conhecida como Okàn. A palavra Okàn quer dizer coração ou sentimentos, mas vamos entendê-la como Espírito. O è que anteriormente estava no Òrun desliga a memória eterna (iyè-èmí) e ativa a memória iyè-àpò ou memória existencial.

Iyè-àpò e iyè-è são uma só, a diferença é que a iyè-è quando está no Òrun tem uma percepção geral de todas as suas vidas terrenas (iyé-àpò) e quando está no Ayé, tem consciência apenas de sua existência temporal, o iyè-àpò. Resumindo: Iyè-àpò está para o Ara-Ayé, enquanto o iyè-è está para o Ara-Òrun, mas ambas são uma só coisa em estágios diferentes de vida.

Durante o processo que permite o nascimento de uma nova individualidade o Ara-Òrun faz a viagem para o Ayé. O corpo físico é gerado e ocorre o nascimento. Neste ponto o è agora chamado de enikeji esta vivenciando a existência terrena, através do conceito de duplo, coexistindo com o corpo físico.

enìkéji que também pode ser chamado báraa (aquele que acompanha o corpo, expressão coloquial referente à própria pessoa, não tem nada a ver com Èsù), executa todos os atos que o Ara-Ayé executa. A individualização do enìkéji ocorre na palavra Okàn (espírito) que é a personalidade do Ara-Ayé, com suas virtudes, defeitos e idiossincrasias. Como a existência ocorre nos dois planos, Okàn pode, eventualmente, fazer visitas ao Òrun ou a outros lugares do Ayé sem se desconectar do Ara-Ayé; esse conceito é também conhecido como viagem-astral. Sabemos que durante o sono essas viagens às regiões do Òrun ocorrem e, em determinadas ocasiões, temos as lembranças de tais experiências. Contudo esse tipo de ação só acontece em momentos que o estado de consciência está alterado. Pois o Ara-Ayé não vive sem o enìkéji. É importante esclarecer que o Duplo (enìkéji) não é outra consciência quando aplicado ao conceito de Pessoa.

Ifá ensina que uma das chaves para o sucesso de uma vivência no Ayé é manter o alinhamento com o destino pessoal escolhido na casa de Àjàlá-Mòpí. Além da escolha do destino existe também o acordo pré-estabelecido com a Divindade com o objetivo de impulsionar a evolução do Indivíduo. Contudo esse registro é esquecido durante o processo de gestação. A informação que está contida no Ìpin-Odù, está conectada ao nosso iyè-èmí, mas manifesta-se no Ayé através de nosso iyè-àpò, isto é, adquirimos orí-destino no Òrun, enquanto Ara-Òrun, mas o realizamos no Ayé, enquanto Ara-AyéA divinação em conjunto com processos de autodescoberta pode revelar ou orientar o Indivíduo a fim de que ele consiga manter o alinhamento com seus objetivos.

Todos os conceitos acima explicados relatam as partes do Indivíduo, porém é importante deixar claro que eles não são componentes separados, não são almas múltiplas, como querem alguns conceituados autores, e sim um conjunto que forma então o conceito de Orí Segundo Luiz L. Marins, “o conceito de almas múltiplas é uma infelicidade acadêmica”.

A tradução da palavra Orí é cabeça, contudo os Yorùbá convencionaram que a palavra simboliza tudo que está acima. Ou seja, Orí é muito mais do que simplesmente cabeça física, Orí é tudo o que é superior, tudo que compõe a pessoa: Ara-Òrun (corpo espiritual), è (espírito eterno), iyè-èmí (memória eterna), Ipòri-Odú (destino abstrato), Okàn (individualidade), enìkéji (duplo)iyè-àpò (memória existencial).

CONCLUSÃO

Infelizmente, como este conceito é muito complexo ele gerou diversas interpretações incoerentes e ele ainda será motivo de muita pesquisa e estudo e ele é, sem dúvida, a chave para o progresso Humano. O culto ao Orí é o mais importante dentro da nossa disciplina religiosa. É por isso que o ritual de alimentar o Orí (bori) é visto como mais importante do que os rituais para as outras divindades. Alimentar o Orí é fortalecer e equilibrar o elemento pessoal, que leva ao alinhamento com o Destino e esta é chave para receber as bênçãos. O conceito que diz que o bori é destinado ao Òrìsà pessoal do Indivíduo ou ainda confeccionado à Obàtálá e Yemoja, não é real. O ato do bori é um ritual ao Orí , neste caso considera-se o conceito acima demonstrado, que detalha a noção de Pessoa, empregado no Orí , ou seja, não estamos falando apenas da cabeça física e sim de tudo que representa o indivíduo. Não podemos afirmar onde e como começou esta confusão que envolve o significado da palavra Orí . Sabemos que existe um grande equivoco e que ele não possui relação alguma com o fundamento Orí Yorùbá. Em Yorùbá uma palavra muda de sentido conforme o contexto e precisamos ter muito cuidado quando empregamos o conceito de Orí. É verdade que a palavra em Yorùbá para cabeça é Orí, mas não no conceito de Pessoa. Quando falamos em alimentar o Orí, não estamos falando em alimentar a cabeça física e sim o conceito abstrato de Orí, que engloba muito mais que a cabeça. O Òrìsà pessoal não é proprietário e nem está adicionado ao Orí como muitos pensam, é o Òrìsà quem serve o OríContrariando o pensamento de muitos o Òrìsà não é dono da cabeça física. Ele funciona como um protetor e orientador espiritual que auxilia a jornada do Indivíduo no Ayé. Certamente as oferendas direcionadas ao Orí não têm nenhuma relação com qualquer Òrìsà.

Ifá ensina também que manter o alinhamento com o Destino pessoal pode ser alcançado através de rituais de elevação (iniciações) e que neste ponto os Òrìsà têm um papel importante, pois eles são o caminho para conectar a nossa consciência exterior com a interior, ou em outras palavras, fazer com que o Okàn mantenha o acordo que è estabeleceu com a Divindade.

Àse. Bàbáláwo Ifádámiláre Agbole Obemo.

Notas:


 

[1]Luiz L. Marins é autor do livro Obàtálá e a Criação do Mundo Iorubá, 2013; e do artigo Èsù Òta Òrisà, publicado no livro Dos Yorùbá ao Candomblé Kétu, 2010. Mantém ainda o portal Cultura Yorùbá <http://culturayoruba.wordpress.com>.

[2] Orí-Odù ou Ìpòrí-Odù são elementos abstratos criados pela divindade conhecida como Àjàlá-Mòpí. Ele molda constantemente novos destinos abstratos, ou seja, conjunto de eventos, qualidades, habilidades que servirão como base para a nova jornada. Eles são simbolizados pelo símbolo religioso da cabaça, o conteúdo do destino só é conhecido por Àjàlá-Mòpí e por Òrúnmìlà, portanto ele pode ser revelado por divinação.

[3] A iyè-àpò é a memória de cada existência e ao iniciar uma nova vida no Ayé, recebemos uma nova iyè-àpò totalmente nova e então tudo o que ocorre na vida é registrado nela. Quando esse ciclo termina, o registro é somado à memória eterna (iyè-èmi), entretanto, são o mesmo elemento apenas vivendo momentos diferentes.