O Significado da Iniciação

Segundo os ensinamentos de Ifá, todo ser humano vem a este mundo com um proposito bem definido, seu objetivo é provocar a evolução humana.

Ifá explica que antes do inicio de uma nova vida, nós formalizamos um acordo com a Divindade, contudo durante o processo de reencarnação o acordo é esquecido, justamente para que o indivíduo exercite sua natureza e não siga um “roteiro”, em outras palavras, não seja uma marionete do seu próprio destino. É muito importante entender que esse acordo feito com a Divindade não tem função de controlar a pessoa, mas sim impulsionar o seu crescimento.

Dessa maneira fica claro que o nosso destino é balizador, ou seja, existe uma “estrada delineada” a seguir, mas podemos tomar o rumo que quisermos, pois temos impetrado em nossa alma o livre arbítrio, dado a nós por Olódùmarè. Porém se nos mantivermos leais aos propósitos previamente combinados no Òrun, ao final dessa existência teremos dado um grande passo em busca da perfeição.

Mas como descobrir o conteúdo desse acordo? Como saber se estamos fazendo o certo? Para responder essas perguntas Ifá ensina: “BÍ OKÒ BABÈRÈ, ÓKÒ NÍ RÍ IDÁHÙN”, ou seja: “Se a pergunta não for feita, nunca saberemos a resposta”.

Este ensinamento expressa a necessidade de descobrir nosso “eu interior”, de buscar as respostas que possam promover em nós mudanças significativas de personalidade, corrigindo e alterando nosso caráter de tal forma que aperfeiçoe nossas ações. Além disso, entender e conhecer nosso projeto com a Divindade ajuda a criar tais mudanças. Muito bem, Ifá também esclarece que para revelar o conteúdo do acordo precisamos alinhar nossa essência interior com nossa essência superior, ou seja, sincronizar nossa consciência com o plano espiritual, guiar os valores terrenos com os princípios espirituais presentes dentro de cada pessoa. Este processo é conhecido como alinhamento do Orí com o destino. Ele é a chave para o sucesso na vida e também para o crescimento espiritual. Tal alinhamento pode ocorrer espontaneamente, sem necessidade de um contato mais próximo com a Divindade, isso pode ser notado em muitas pessoas que tem facilidade para obter êxito em seus empreendimentos, demonstrando claramente que Orí e destino estão em perfeita harmonia.

Mas quando tal alinhamento não ocorre, as pessoas passam por dificuldades grandes, temos a impressão que a vida está bloqueada e logo pensamos em ações externas, como feitiços agindo sobre nossa vida.

Esta afirmação nem sempre procede, normalmente, o inimigo somos nós mesmos, o nosso caráter (Iwa). Para remover tal obstáculo, a Divindade determinou que os Òrìsà fossem nossos protetores e orientadores, ajudando o homem a encontrar dentro de si mesmo o caminho e então provocar o alinhamento tão desejado e necessário.

Ifá ensina que provocar estados alterados de consciência criam as condições ideais para que o homem tenha a experiência de vislumbrar (visualizar) o Òrun, ou seja, recriar momentaneamente a ligação da consciência com a essência interior. Essa experiência é alcançada durante rituais que facilitem tal contato. Dentro do contexto religioso de Òrìsà/Ifá existem muitos momentos que criam as condições ideais para que o homem faça a viagem de volta ao Òrun, esses momentos são conhecidos como obrigações ou ainda iniciações.

Uma iniciação seja em Òrìsà ou Ifá é um processo ritualístico que tenta reconectar o homem a sua ancestralidade e a sua essência, utilizando como instrumento os Òrìsà que estão de alguma maneira ligados a seu Orí. Vale esclarecer que os Òrìsà não comandam o Orí, Eles são pilares que sustentam e equilibram a força interior que todo homem possui. Este ritual retira o véu que cobre nossa visão da realidade espiritual e isso provoca o aumento da percepção do Òrun, ou seja, podemos perceber o que realmente viemos fazer aqui. Como explicado anteriormente a iniciação irá ajudar o alinhamento do Orí com o destino, irá facilitar o entendimento do acordo com a Divindade e isso causa imediatamente alterações positivas no comportamento do homem.

Infelizmente muitos seguidores do culto de Òrìsà/Ifá se preocupam mais com as circunstâncias do ritual, ou seja, se este ou aquele ato foi feito corretamente, se vai haver uma “festa” para o Òrìsà, se a roupa tem mais brilho ou é mais bonita que a de outras pessoas, se vai ganhar um "certificado" atestando um cargo, em outras palavras, se preocupam mais com o glamour do que com o fundamento, com o objetivo deste importante ato pelo qual esta passando.

No Brasil não existe uma colaboração ou integração entre os templos religiosos, cada um segue de forma geral os rituais passados pelos seus mais velhos, porem muitos desses foram alterados ou ainda perderam sua essência. Assim é comum que entre os sacerdotes exista discrepância quanto aos atos litúrgicos, observamos criticas duras trocadas entre casas de Òsà/Ifá, invalidando os atos feitos por outros e deixando muitos iniciados totalmente perdidos e confusos quanto à veracidade das iniciações que eles receberam.

Ifá ensina que não existe uma forma convencionada de se fazer um ritual, o ritual correto é aquele que impulsione a transformação interior, contudo existem tradicionalmente dentro de cada seguimento religioso, rotinas já consagradas, ou seja, rituais definidos que são passados de geração em geração. Dentro deste contexto é importante lembrar que tudo deve evoluir, então é natural que tais procedimentos sejam aperfeiçoados, ou ainda, adaptados a regiões diferentes daquelas que eles são originados, por exemplo, o Ifá praticado atualmente no Brasil, não é exatamente igual aquele praticado na África, simplesmente pelo fato que à cultura Africana é muito diferente da Brasileira, por isso, nós fazemos um Ifá brasileiro, “baseado” no Ifá nigeriano, sendo assim, já existem aqui adaptações. Essa afirmação, contudo não vem para validar o charlatanismo que está impregnado no Brasil no que diz respeito as religiões baseadas na cultura Yorùbá. O fato de Ifá dizer que não existe uma forma correta de se fazer algo está relacionado ao fato de que o “rito imita o mito”, ou seja, os rituais são criados pelo homem baseados nos ensinamentos sagrados que estão guardados na sabedoria dos sacerdotes sérios. Por isso, não é correto dizer que o culto de Ifá é melhor ou superior ao culto de Òrìsà (Batuque, Candomblé, etc.). Se retirarmos os elementos sincréticos e folclóricos existentes no culto Afro-Brasileiro encontraremos grande similaridade com o Ifá tradicional, através de rituais compatíveis com o padrão Yorùbá.

É possível concluir então que não importa em qual tradição você seja iniciado, porque se Ifá fosse o único caminho que provoca-se a transformação interior, o que seriam dos seguidores de outros cultos, como por exemplo os Budistas. O que precisa estar claro para todos é que não importa o ritual e sim a atitude dos iniciados, se cada pessoa não buscar a transformação é inútil seguir qualquer caminho. Ifá ensina que: “TÍ ÍBÌ TÍ AFÈ LÓ KÓ BÀSE PÀTÁKÍ, GBÓGBÓ ONA NÍ PÀTÁKÍ”, ou seja, “se o destino não importa, qualquer caminho serve”, em outras palavras, se o homem não tem uma meta digna, não importa qual tradição ele esteja seguindo.

Realizar a transformação interior pode ser alcançada com o apoio do culto de Ifá e/ou com o apoio do culto de Òrìsà. O compromisso com a evolução moral é que cria a ligação entre o Orí e o Òrun.

Àse. Bàbáláwo Ifádámiláre Agbole Obemo.

Este texto está baseado na matéria publicada na revista Olórun edição 17, revisada e ampliada para veiculação neste site.