3) As Divindades segundo Ifá: Olódùmarè

Este artigo conclui nossa primeira matéria: “Como tudo começou”, para melhor compreensão do mesmo sugiro ler os dois artigos iniciais:

1º Como tudo começou.

2º O surgimento do Órun.

Conforme explicado nos artigos acima, Olódùmarè é a origem de tudo que existe. A partir Dele “àse” (poder da realização) mantem o Universo em funcionamento, portanto Ele é o “gerador” que sustenta a vida.

Comentário: Conforme o artigo 2º: “Eu utilizo a expressão “Ele”, mas também não podemos dizer que Olódùmarè possua polaridade (masculino/feminino), é apenas uma figura de linguagem”.

Existem vários nomes associados à Fonte, no Brasil é comumente chamado de Ólórun que significa (o proprietário do Céu), contudo precisamos lembrar que Ólórun está presente em toda Criação, já que Ele forneceu a matéria prima para a construção tanto do reino invisível (Órun) quanto do reino visível (Ayé).

A forma como a Criação ocorreu, se houve participação direta Dele ou não é um assunto polêmico. Alguns autores afirmam que foi Olódùmarè diretamente quem coordenou a Criação, outros, contudo dizem que foram as Divindades por Ele criadas, o fato é que neste assunto não há uma forma única de expressar o conceito. Alias algo que precisa ficar claro, dentro do contexto religioso, principalmente baseado na cultura Yorùbá, onde a oralidade foi à forma encontrada para passar adiante o conhecimento, nada pode ser considerado absoluto. Os conceitos existentes hoje foram acumulados e desenvolvidos ao longo do tempo, receberam influência de varias culturas e se organizaram em famílias religiosas, portanto, existem várias visões que devem ser respeitadas, desde que sigam um processo no mínimo coerente.

Este estudo é fruto de orientações passadas dentro da minha família religiosa e pesquisa pessoal na literatura disponível, baseado nisso entendo que Olódùmarè delegou atribuições as Divindades e da mesma forma que nós temos liberdade para pensar e tomar decisões, as Divindades também. É claro que durante este complexo processo foram criados mecanismos que regulam o funcionamento da Criação, é necessário existir estabilidade para que tudo funcione, portanto as Divindades possuem certos limites, que eu gosto de chamar de “domínios”, assim cada uma Delas cuida de funções especificas.

Comentário: Conforme o 1º artigo: “Ifá ensina que cada Divindade possui total independência, podendo agir e atuar como quiser, salvo por limitações (leis e mecanismos reguladores) que controlam alguns aspectos dessa questão (assunto será tratado em próximas postagens). Olódùmarè então criou uma equipe de Divindades com funções especificas visando o interesse de controlar e manter a Criação em funcionamento, que serão explicadas nas próximas postagens”.

Portanto a Criação do mundo físico foi realizada pelas Divindades criadas por Olódùmarè e não por Ele diretamente. Em matéria futura explicarei a criação do Ayè, onde Olódùmarè fornece a matéria prima, mas quem executa o processo em sí foi outra Divindade.

A palavra Olódùmarè possui diversas traduções. Ele é comumente citado em Ifá como a Fonte da luz da branca. Luz branca é uma referência para aquilo que contem tudo que existe, sabemos que fisicamente a luz ao atravessar um prisma se divide em vários raios de cores diferentes, ou seja, essa é uma referencia ao fato de Olódùmarè “gerar” vários tipos de energia/matéria distintas.

Outra tradução possível para a palavra Olódùmarè seria: “Oló Odù Osumarè”, ou seja: “o espirito do ventre da serpente do arco-íris”.

Comumente Olódùmarè é descrito como vivendo no fim do arco-íris e também há citações relacionando Ele com a serpente. O símbolo da serpente associado à Divindade é encontrado em várias culturas. Para nós em Ifá, as escamas simbolizam o DNA espiritual que cresce de um único ponto expandindo-se. Outra interpretação para essa palavra poderia ser: “A serpente dona do pote, ou ainda, a serpente que vive no pote”, Odù pode ser traduzido como pote ou útero, todos os termos nos dão noção de que Ele guarda a origem de tudo, tudo vem Dele e segundo Ifá, um dia voltará para sua forma original.

O símbolo do arco-íris também demonstra a distância que estamos Dele, ou seja, segundo Ifá ele vive no final do arco-íris, enquanto nós estamos na sua base. Quando eu falo em “distância”, não estou falando em acesso, mas sim em percepção e interpretação. É muito difícil para nós definir a natureza da Fonte, justamente porque nossa mente ainda é bastante limitada, qualquer descrição da sua natureza é baseada em nossos valores, que com certeza não refletem em nada a grandiosidade de tal energia.

Infelizmente não há abundância em documentação formal que fale a respeito da Fonte, vamos fazer uso de um Oríkì da obra do Babalawo Fa’lokun Fatunmbi: “Dafá: The Ifá Concept of Divination and the Process of Interpreting Odu”, página 13 da versão digital.

Olódùmarè, mo ji loni. Mo wo’gun merin aye.

Criador, eu saúdo o novo dia. Saúdo as quatro direções que criaram a terra.

Igun kini, igun keji, igun ketaigun kerín Olojo oni

O primeiro canto, o segundo canto, o canto mais longo, o quarto canto, são os proprietários do dia de hoje.

Gbogo ire gbaa tioba wa nile aye. Wa fun mi ni temi.

Taya omo tegbe – t - ogba,

Eles nos trazem a boa fortuna (boa sorte) que sustentam a vida na Terra. Eles nos trazem todas as coisas que sustentam meu espirito.

Comentário: Como podemos notar é Olódùmarè quem envia a boa sorte, este termo em Ifá está relacionado às bênçãos que vem as nossas vidas. A energia que mantem a vida na terra provê Dele. Vale reforçar, “provê” no sentido que Ele é a fonte disso. Além de manter a terra viva, também mantem nosso espirito, sustentando a imortalidade.

wa fi yiye wa. Ki of f’ona han wa. Wa fi eni eleni se temi,

Com você nada falhara, nós agradecemos pela estrada que você criou, nada pode bloquear o seu poder.

Comentário: Ele, portanto é completo, pois nada que faça irá falhar. Podemos entender aqui o conceito de perfeição atribuído a Ele e sua supremacia perante toda Criação. Apesar de alguns autores defenderem que Olódùmarè não interfere nos processos do Universo, eu particularmente discordo, pois existem vários mitos onde as Divindades recorrem a Ele em situações de conflito e o mesmo intervêm.

Alaye alaye o. Afuyegegege meseegbe. Alujonu eniyan ti nfowo ka le.

Louvamos a Luz da Terra, isto é o que sustenta a abundância da Criação.

Comentário: Novamente notamos sua função de Fonte geradora da Criação.

A ni kosi igi meji ninu igbo bi obi. Eyiti ba yako a ya abidun dun dun dun. Alaye o, alaye o.

Ele nos traz o alimento da floresta. Ele nos traz coisas doces para nossas vidas. Louvamos a Luz da Terra. Louvamos a Luz da Terra.

Nota: Gostaria de esclarecer que eventualmente a grafia Yorúbà deste Oríkì pode não estar totalmente correta, visto que foi coletado pelo autor em suas viagens a África e trata-se de “Yorúbà antigo”, traduzir texto sagrado nem sempre é uma tarefa simples.

Segundo o autor Ayo Salami em sua obra “Yorúbà Telogi y tradicion”, a Olódùmarè são atribuídos as seguintes qualidades:

Oba tí kìí kú

O rei que nunca morre

Oba tí kìí arùn

O rei que nunca fica doente

Oba tí kìí tòògbé

O rei que nunca descansa

Oba tí kìí sùn

O rei que nunca dorme

O verso acima demonstra que a fonte supera as deficiências humanas, como o fato dele nunca morrer, nunca ficar doente e estar sempre ativo.

Ainda na mesma obra Ayo Salami nos brinda com o seguinte ensinamento extraído do Itan do Odù Ògúndá Ìròsún:

Ìgbò awo Òrun

Ìgbò o sacerdote do Céu

A difá fún Olódùmarè

Foi quem consultou Ifá para Olódùmarè

A faso omi kó

Aquele que constrói sua casa com água

Látìgbàdégbà

Desde os tempos imemoriais

Èyí tó wu Olódùmarè níí se

O que Olódùmarè quiser, Ele faz

Bó tó wu Olódùmarè a ta dúdú

Se Olódùmarè quiser, envia uma novem escura

Èyí tó wu Olódùmare níí se

O que Olódùmarè quiser, Ele faz.

 

Ògúndá Ogbè:

Èbá ìlú dùún gbé

As redondezas da cidade são agradáveis para viver

Ìkòkò ìlú dùún rìn

Locais solitários da cidade são agradáveis para caminhar

Báa bá dá Ògúndá borí Ogbè sìlè

Se colocarmos Ògúndá e Ogbè na bandeja

Gbogbo awo a féé jé

Todos os sacerdotes gostariam de comer

Gbogbo awo a féé um

Todos os sacerdotes gostariam de beber

Omo awo a fìdí òrèrè balè

Os iniciados estariam esperando

A difá fún Olódùmarè a gòtún

Foram eles que consultaram Ifá para Olódùmarè

Olomo a téní fo´ri sapeji omi

O Ser que se estende como uma nuvem e usa sua cabeça como se fosse nuvens de chuva.

Tí ó móo sohun gbogbo bíidan bíidan

Que estaria fazendo tudo pela arte da magia

Kò sóhun tÓlórun ò le se

Não há nada que Ólórun não possa fazer

Bó bá sòjò

Se ele quiser faz chover

A sò

E haveria seca

sèkan a mú bí otútú

Faria ficar frio.

sèkan a mú bí oyé

Faria ficar quente

Bó wu Olódùmarè a se dúdú

Se Olódùmarè quiser faz uma nuvem negra

Bó wu Olódùmarè a se funfun

Se Olódùmarè quiser faz uma nuvem branca

Bó wu Olódùmarè a se àyìnrín

Se Olódùmarè quiser faz uma nuvem amarela

Bó sì wu Olódùmarè a ta tálà

Ou outra de cor creme

Olá Olórun ga

A graça do Rei do Céu é poderosa

Ó mò ju tèèyàn lo

Ele é mais forte do que o humano.

 

Os versos acima deixam claro que para Olódùmarè tudo é possível. Sendo Ele superior a humanidade e pode então controlar qualquer coisa na Criação (exceto a liberdade de ação dos seres vivos). Apenas com os versos acima temos como concluir que Ele é a fonte do inicio dos tempos:

A faso omi kólé, Látìgbàdégbà - Aquele que constrói sua casa com água. Desde os tempos imemoriais”.

A água sempre esta associada com a fonte da vida, por isso ela é citada aqui.

Concluindo então nosso artigo, tentei demonstrar de forma simples algo que não pode ser explicado em sua totalidade, tenho a convicção que Olódùmarè ao desejar a existência de outros seres, tem por eles profundo amor. Não sabemos se a Fonte possui sentimentos da mesma maneira que nós, mas Ele não faria algo tão grandioso por mera diversão. E por isso eu digo:

Ìbà Olódùmarè, Oba àjíkí

Eu saúdo o Criador, o rei a quem louvamos primeiro.

Àse. Bàbáláwo Ifádámiláre Agbole Obemo.