A iniciação em Ifá e sua relação com o culto afro-brasileiro

Atualmente o tema Ifá está em alta no meio religioso, levando muitos adeptos dos cultos afro-brasileiros, procurar um contato mais profundo com esse assunto. Contudo por falta de informação clara a respeito do tema, muitos conflitos e mal-entendidos tem se estabelecido, gerando confusão e criando problemas familiares nas casas tradicionais do Brasil.

Precisamos entender o foco e contexto do culto de Ifá e sua relação com os cultos afro-brasileiros como o Candomblé, com suas várias nações, o Batuque e o culto ancestral brasileiro conhecido como Umbanda.

Muito se fala que o culto de Ifá é superior aos demais cultos, ou ainda que ele esteja livre de influências de outras religiões, portanto guarda para si a originalidade da cultura africana. Muito bem, primeiramente na África existem muitos cultos além do Ifá. A estrutura religiosa e cultural lá encontrada é bastante diferente da praticada no Brasil. Contudo o Ifá praticado na África, salvo a influência Cristã e mulçumana muito presente na atualidade, conseguiu preservar sua essência graças a tradição oral passada de geração em geração. Porém é fato indiscutível que o processo ritualístico realizado à 100 anos atrás, não é o mesmo encontrado hoje. Simplesmente porque o Ifá é baseado em texto sagrado, escrito por sacerdotes capacitados para tanto e que periodicamente é atualizado. Ou seja, os sacerdotes africanos criam novos versos, documentando conhecimento e experiência recentes atualizando assim a quantidade de informações disponíveis a respeito dos procedimentos rituais e experiências pessoais. Dessa forma o culto mantem sua tradição, mas não deixa de desenvolver-se.

No Brasil o culto afro-brasileiro tomou um caminho parecido. Durante todos esses anos de desenvolvimento, adaptando o conhecimento trazido pelos sacerdotes africanos escravizados e desenvolvendo então um novo modelo, que fatalmente foi influenciado por diversas circunstancias culturais e religiosas. Por isso todos concordam que a forma de cultuar Òrìsà no Brasil é muito diferente da forma africana, contudo não é melhor, nem pior.

Dentro dessa visão deixo claro que ambos cultos seja o africano ou o brasileiro, são eficientes para o trato com as Divindades. É verdade que durante o período de desenvolvimento do culto afro-brasileiro alguns conceitos ou práticas foram perdidos. Alguns deles muito importantes, por isso, seus seguidores devem buscar o resgate dessas práticas a fim de aperfeiçoar os processos hoje executados. Essa tarefa encontra diversos obstáculos, pois em nome da “tradição”, alguns sacerdotes evitam analisar ou entender aspectos do culto africano tradicional, que poderia contribuir em muito para o progresso das tradições brasileiras.

Um ponto extremamente polémico, mas que precisa ser abordado é a eliminação urgente dos elementos Cristão presentes no culto afro-brasileiro. Deixo claro: Não temos nada contra a cultura cristã, porem seus fundamentos não são compatíveis com visão de mundo presente no culto de Ifá/Òrìsà. Retirar os elementos e práticas cristãs do nosso meio não é ferir a tradição, ao contrário, é ir de encontro com a essência africana presente em nossos rituais.

Aproveitando certa fragilidade conceitual que existe no meio do culto afro-brasileiro, alguns sacerdotes vendem a conversão de seus seguidores para o Culto de Ifá. Utilizando a abordagem da originalidade conceitual presente no Ifá. É verdade que as casas de Ifá no Brasil estão tentando a medida do possível aplicar o conhecimento e a ritualista sem influência local. Seguindo a tradição de suas famílias africanas e criando então no Brasil um seguimento novo do Ifá, pois é impossível praticar o Ifá tradicional no Brasil da mesma forma que ele é praticado na África, justamente pela diferença cultural enorme existe entre eles.

Na África, como explicado anteriormente existem diversos cultos, como por exemplo, culto de Egúngún, culto de vários Òrìsà, culto de Ìyámi, etc. Por exemplo, é tradicional que um seguidor religioso participe de vários cultos e não apenas um especificamente. Normalmente o individuo poderia passar pela iniciação em Ifá primeiramente, para que ele conheça seu Odù pessoal e saiba quais caminhos são necessários para o seu bom desenvolvimento. A própria iniciação em Ifá indica que o iniciado cultue outras energias, portanto ele irá realizar novas iniciações em cultos anexos. Sendo assim a iniciação em Ifá não é sobreposta pelas outras iniciações, elas são apenas anexadas, ou somadas, para que potencialize ainda mais as ferramentas espirituais utilizadas pela pessoa.

Se na África é praticado dessa forma, porque não podemos fazer o mesmo no Brasil?

Em nosso sistema afro-brasileiro, as casas de Batuque e Candomblé realizam a iniciação para o Òrìsà sem o apoio do Odù Ifá. Por isso o oráculo existente e desenvolvido neste meio é a forma para se saber qual Divindade protege o individuo e portanto para qual a iniciação deve ser orientada. Esse procedimento não esta errado, pois é possível apurar corretamente o Òrìsà antes da iniciação. Os praticantes então desses cultos não tem a informação do seu Odù pessoal, isso é uma pena, pois tal conhecimento amplia a possibilidade da realização do potencial pessoal. Infelizmente os seguidores do culto afro-brasileiro deixam de lado tal possibilidade pelo medo de que a iniciação em Ifá irá cancelar ou substituir a iniciação em Òrìsà. Tal afirmação é falsa. O objetivo da iniciação em Òrìsà é a reconexão com a ancestralidade pessoal/familiar, enquanto que a iniciação de Ifá é a reconexão com o objetivo e missão nesta encarnação. Portanto são áreas distintas. Em termos simples, o culto a Òrìsà cuida de uma especialidade e o culto de Ifá de outra, ambos são importantes, mas não conflitantes. Eu por exemplo, me iniciei no culto de Òrìsà Brasileiro (Batuque) quando eu já tinha alcançado o cargo de Bàbáláwo e tal processo não me atrapalhou em nada nas praticas de Ifá. Muito pelo contrário, me possibilitou ampliar o leque de possibilidades para auxiliar as pessoas que me procuram.

O ideal para que uma pessoa seja bem sucedida na vida física, é que ela trabalhe seu destino e para isso utilize como apoio a energia de seu Òrìsà e também tenha o amparo da ancestralidade. Ou seja, Ifá, Òrìsà e as entidades, trabalham em parceira e não em rivalidade.

Se você é praticante das tradições brasileiras como o Batuque, Candomblé, Umbanda, Quimbanda, Espiritismo, ou qualquer outra disciplina religiosa e deseja conhecer seu Odù pessoal, acrescentar a filosofia de Ifá a sua vida, não tem a menor necessidade de abandonar a sua experiência anterior. Ifá soma-se ao que você já tem, ajudando o alinhamento e organização das energias inerentes ao seu Orí.

Tal parceira entre essas energias é a combinação perfeita de forças que são compatíveis com a natureza espiritual do Brasil. Por isso defendo que as casas de culto ao Òrìsà (Candomblé e Batuque) e as casas de culto ancestral (Umbanda, Quimbanda, etc.) deveriam criar uma relação pacifica e saudável com as casas de Ifá. Respeitando suas especialidades e contribuindo mutualmente para o desenvolvimento saudável da religião de matriz africana no Brasil. Contudo que fique claro, um seguidor pode fazer parte de vários cultos, mas nunca deve mistura-los, todo o processo ritualístico deve estar totalmente separado. É assim que Ifá ensina, essa é forma ideal de convívio.

Àse. Bàbáláwo Ifádámiláre Agbole Obemo.