As Divindades segundo Ifá: O surgimento das Divindades

 

 

 

Continuando nossa série de estudos sobre as Divindades no contexto de Ifá, iremos tratar agora do surgimento das mesmas. Mas o que é uma Divindade?

Podemos interpreta-la como um espirito em estado de perfeição[1]. Algumas foram criadas pela fonte primordial da Criação e outras são filhas dessas Divindades. São formas de vida conscientes, que possuem liberdade de ação (como nós), mas não são necessariamente humanas. Nossa interpretação das Divindades tenta traduzi-las em personagens que tem alguma relação com nossa história, valores, conceitos, encontrando assim pontos de convergência que nos permitem imaginar sua essência, é fato que a mente humana ainda não consegue entender tal forma de vida em sua totalidade. Por isso encontramos diversas lendas que descrevem a forma de atuação das Divindades realizando um paralelo com personagens mitológicos. Afirmar exatamente se esses personagens foram reais ou simples figuras utilizadas para levar o conhecimento sobre Eles para outras gerações, depende ainda de muita reflexão. Humanizar as Divindades é como limitar seu poder e sabemos que não há limites para a força do Espiritual. Se em algum momento determinada Divindade tomou (ou ainda toma) a forma humana para concretizar seus projetos e passar desapercebida no plano físico, como muitos relatos contam, é algo que também não podemos afirmar ou negar. O que sabemos é que esses Espíritos têm uma origem Divina ou que alcançaram tal posição em decorrência de sua ascensão enquanto homens. De alguma forma no passado distante tais Espíritos mantiveram um contato concreto com os seres humanos, segundo Ifá: “quando o véu que separava os planos de existência era fino como a seda”, essa frase deixa claro, que a separação entre as dimensões era sutil e que o transito entre elas era constante. Foi neste período de formação do Universo que seus ensinamentos foram passados para a humanidade, em diversos momentos da historia, em diversas civilizações diferentes. É por essa razão, que existem certos conceitos que são comuns em muitas religiões, como sabemos de uma forma ou de outra, praticamente todas possuem algum tipo de “Divindade” na sua liturgia.

Conforme explicado nas matérias anteriores (consulte o surgimento do Òrun), Olódùmarè a fonte de tudo que existe, criou a dimensão invisível, conhecida como Òrun. Esse local foi projetado para abrigar uma quantidade enorme de formas vidas diferentes, as lendas sagradas que são a base para a religião tradicional Yorùbá, costumam citar a existência de muitas Divindades associado ao numero 201 ou 401, sabemos que essas referencias simbolizam algo incontável[2]. Esse fato demonstra que apesar da nossa percepção limitada da Criação, é fato que o Òrun, seja algo muito vasto e complexo, onde habitam seres incontáveis. Contudo o surgimento desses habitantes ocorreu (e ainda ocorre) que forma gradativa.

Ifá ensina que o primeiro Odù a surgir foi Òfún Méji[3], este Odù é associado à energia masculina, também conhecida como funfun, energia branca. A cor branca é associada à pureza, no sentido de originalidade, ou seja, as primeiras formas de vida surgiram da energia original do próprio Olódùmarè.  Òfún Méji emerge da ação de Olódùmarè ao criar o Òrun.  Sabemos que existe uma grande discussão conceitual sobre qual foi a primeira Divindade criada por Ele, segundo alguns estudiosos em concordância com o conceito Ifá, a primeira Divindade a adquirir consciência foi Obàtálá[4]. A função de Obàtálá e de Olódùmarè de certa forma está inter-relacionada, por isso entendemos que ambas as formas de vida tem uma origem bastante comum. Contudo foi Olódùmarè enquanto individualidade que deu vida a Obàtálá. O nascimento dessa Divindade é descrito no Odù Òfún Méji e também no Odù Ogbè Meji, mas principalmente no último, Ifá diz que o Odù Ogbè Méji emergiu do Odù Òfún Méji e durante esse processo Obàtálá foi criado, ou seja: A ação de Olódùmarè ao criar Obàtálá faz com que Ogbè Méji nasça de Òfún Méji. Atenção para a palavra “emergiu”, isso indica que de certa forma Obàtálá se “separou” de energia de Olódùmarè[5], sendo então uma parte Dele próprio[6], contudo vale ressaltar que Obàtálá é uma forma totalmente individualizada, este é o motivo que dá a Ele uma posição em destaque no panteão das Divindades. Iremos tratar especificamente de Obàtálá em matéria futura, citamos aqui seu surgimento para demonstrar a dinâmica da Criação. 

Alguns estudiosos defendem que os Òrìsà (as Divindades) são o próprio Olódùmarè em formas reduzidas, ou seja, Ele mesmo, porém com uma roupagem diferente, isso sugere então que as demais Divindades seriam marionetes, ou personagens do Criador, não tendo, portanto individualidade. Observando os ensinamentos de Ifá, fica claro que não foi esse objetivo de Olódùmarè. Na realidade cada Divindade possui uma personalidade própria, com pensamentos, ações, atuação especifica, que não depende de certa forma, da sanção ou controle de Olódùmarè. Ou seja, uma vez delegado[7] o “poder” a determinada Divindade, somente o próprio Olódùmarè, poderia interferir neste domínio, pois ele compartilha[8] tal controle, contudo sabemos que raramente o fará. 

Segundo Ifá, as Divindades foram criadas para criar e manter o suporte à vida no plano físico, bem como proteger e orientar o homem. Sendo assim cada uma Delas possui um campo de atuação próprio, conhecido como domínio. Essa informação é muito relevante visto que dá a cada Divindade o controle absoluto sobre estas áreas da Criação. Por exemplo, a Divindade Oya tem o domínio sobre o vento, portanto cabe a ela coordenar essa força da natureza, nenhuma outra Divindade tem poder sobre essa energia. Por esta razão nenhuma Divindade é mais ou menos importante que outra, já que Olódùmarè separou e distribuiu o controle sobre a Criação entre Elas, dando plenos poderes e direitos sobre essas áreas. 

Esse equilíbrio é muito positivo, contudo o Criador criou mecanismos de limitação para regular certas ações, da mesma forma que ele criou esses mecanismos para controlar a vida humana. Apesar das Divindades terem liberdade, eles precisam prestar contas de seus atos, isso é claro, para impedir que a Criação seja colocada em perigo. 

Assim a natureza dessas forças espirituais é de sustentar a vida na Terra, garantindo ao homem tudo aquilo que ele precisa para se desenvolver[9]. Além disso, as Divindades atuam como protetores individuais do ser humano. Dando a nós o apoio necessário na jornada terrena. Existe um conflito sobre esse conceito, apesar dos Òrìsà serem “pais e mães” dos homens na terra, eles não governam nossas ações, sendo assim, não são responsáveis por nosso sucesso ou fracasso. Não cabem a Eles, tomarem para si a nossa vida, sua função está relacionada com a posição de “mentor”, ou seja, de conselheiro. Cabe a nós decidir e, portanto receber os resultados de nossas ações.

Àse! Bàbáláwo Ifádámiláre Agbole Obemo

[1] Os Orixás, Pierre Fatumbi Verger, versão digital, página 10.

[2] Iba àse Òrì,Falokun Fatunmbi, página 62.

[3] Ifá Divination, Willian Bascom, versão traduzida, página 48.

[4] Obàtálá e a Criação do Mundo Iorubá, Luiz L. Marins, página 17.

[5] O sentido de emergir ou separar indica apenas que Obàtálá foi criado praticamente da mesma matéria original que Olódùmarè surgiu, contudo Eles são personalidades diferentes.

[6] No sentido de ter sido criado por uma energia parecida.

[7] Os Orixás, Pierre Fatumbi Verger, versão digital, página 12.

[8] Ifá recompondra nuestro mundo roto, Wande Abímbólá, página 8.

[9] Tradition, the workship – Ayo Salami, página 33.